quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Arte Transformista





 Salve Caríssimos!

            Venho falando aqui, neste espaço, do transformismo, assim como dos transformistas. Mas o que vem a ser exatamente o transformismo? Será que o transformista pode ser considerado um artista? Será que podemos chamar o transformismo de arte? Não será, somente, uma combinação de várias técnicas? Não seria, afinal, apenas mera imitação?

            Pesquisando na internet, pude constatar que pouco se coloca no ar algo sobre o assunto. Pelo menos algo que se possa, digamos assim, extrair uma definição mais precisa, mesmo que breve, a respeito do tema neste blog tratado. Dê uma “googada” com a palavra transformismo e verá a quantidade de coisas diferentes que podem aparecer. Desde teorias da genética até conceitos da ciência política, passando por leis da matemática e até, pasmem, lendas medievais de lobisomens e vampiros, além de shows de mágica, onde uma mulher troca de roupas num piscar de olhos. Mas show ou espetáculo transformista, muito pouco, quase nada. Em compensação se "googar" com a palavra travestismo, aí aparece muita coisa, porém confusas.

           Antes de qualquer coisa, é bom começarmos, então, por esclarecer o que, aqui, nos interessa. Poderemos entender melhor a questão se a analisarmos por dois pontos de vista. Somente tendo a priori a idéia das duas dimensões do fenômeno é que poderemos analisá-lo melhor.

Em primeiro lugar, o transformismo pode ser reconhecido como uma das práticas sociais de transgeneração, isto é, uma transcendência e/ou uma transgressão das categorias de gênero, quando alguém que, reconhecido como pertencente a um sexo biológico (homem ou mulher), representa por razões diversas e em circunstâncias variadas um papel social diferente. É o simples ato de alguém transitar e “brincar” entre identidades polarizadas e historicamente estabelecidas como modelo para nosso padrão de convivência, assumindo e representando, então, personas diferentes. Atualmente, o termo transformista serve para definir um padrão específico de comportamento transgênero; de uma categoria de sujeitos que não utilizam a transgeneração em seu dia-a-dia, mas somente em eventos específicos, tais como performances artísticas e concursos de beleza transformista (mais detalhes no post ABC das Sexualidades). Se olharmos a questão somente sob este aspecto a compreenderemos apenas como uma simples prática de indivíduos de um determinado sexo que se portam como se do outro sexo fossem, por meio de uma transformação ou, às vezes, uma indefinição, ou ainda, uma ambivalência dos gêneros masculino e feminino. Se olharmos por este aspecto único, acabaremos por compreender erroneamente o fenômeno, dando margem a uma compreensão estereotipada e reducionista. Muito provavelmente olhar a questão por este único ângulo é que permite a nossa sociedade confundir toda uma série de fenômenos atuais e “colocá-los sob o mesmo grande guarda-chuva conceitual”. Tanto que a palavra transgênero, ainda não dicionarizada no português, e que serviria para abarcar todos os fenômenos trans, como travestis, transexuais, crossdressers, drags e transformistas, encontra certa resistência por parte desses coletivos por não dar conta das especificidades identitárias de cada grupo sociopolítico.

Em segundo lugar, o transformismo deve ser analisado também como uma prática histórica, artística e performatizada de alguém que se utiliza da transgeneração como suporte para essa mesma prática artística. É o famoso show transformista, que tem suas raízes no fazer teatral, numa homocultura, na cultura de massas e sua indústria cultural e na prática social trans. De maneira genérica, compreende os concursos de beleza, os shows ou atividades artísticas de palco, realizadas por transformistas, drag-queens, artistas travestis e performers. Há uma imitação e uma interpretação performatizada de uma determinada personalidade ou personagem, geralmente cantoras e grandes estrelas do cinema. Atualmente estão dizendo que certos transformistas e drag-queens andam fazendo também o Stand Up Comedy, um tipo de show cômico com o artista parado no palco utilizando-se de um texto engraçado recheado de piadas para se apresentar ao invés da dublagem. Há muito tempo artistas transformistas fazem este tipo de atividade artística juntamente com a dublagem.  Agora o nome americanizado foi incorporado por estar na moda.

Assim, é essa segunda dimensão, de aspecto artístico, que nos possibilita, também, descolarmos o transformismo de uma categoria “maior”, mais abrangente e, portanto, reducionista, de um ato de transgeneração e interpretar o fato por um viés mais aprofundado, específico, de uma categoria que tenta se auto-definir em termos identitários, nos permitindo, então, perceber o leque de identidades aí imbricado.

Bem... Vamos compreender melhor esta segunda dimensão e seu caráter artístico. Comecemos pela imitação. Transformismo é imitação sim. Observação, e imitação. Mas, muito mais que isso, também é interpretação. O transformista empresta sua carga emocional e ressignifica a obra apresentada. Dá sua “cara”, sua leitura, uma nova roupagem. Por isso também é considerado um ator. Tanto o ator convencional quanto o ator transformista emprestam seu corpo ao personagem, porém, o transformista é um ator um tanto diferenciado, que não interpreta um novo personagem a cada texto, mas sim, um ator que “incorpora” uma única persona que se manifesta em várias.

É mais uma das várias modalidades do fazer artístico; uma entre tantas de uma grande área da interpretação e que congrega diferentes e variadas formas de interpretar e diversas linguagens artísticas.

A arte transformista nasceu nos teatros, mas se confinou a determinados espaços de atuação e esteve por um tempo restrita aos meios de sociabilidade gays. No entanto, este fato vem se modificando, com atores transformistas voltando à raiz da arte e sendo reconhecidos por seu trabalho no teatro, sendo descaracterizados como “meros” atores-transformistas e reconhecidos simplesmente como “atores”, apesar de haver um certo preconceito ainda na classe teatral. Posso citar dois exemplos: Rogéria no Rio de Janeiro e Dandara Rangel, aqui em Porto Alegre, que ganharam importantes prêmios de teatro com seu trabalho transformista. Isto é, Rogéria ganhou o prêmio como Rogéria, não como Astolfo e Dandara Rangel como Dandara, não como Jair.

Por questões sociais e históricas e sua confinação a espaços restritos, a manifestação da arte transformista tornou-se, de certa forma, mais diferenciada de sua raiz teatral, ligando-se, então, mais à música e à dublagem do que à atuação propriamente dita. Isto ocorreu também por ter se desenvolvido inicialmente junto ao Teatro de Revista que era extremamente musicado e coreografado (em outros posts darei mais detalhes históricos a respeito). Assim, acabou se configurando no que entendemos, hoje, por show transformista. Que deve ser considerado um fenômeno datado, social e historicamente construído e pode ser compreendido artisticamente diferenciado de sua matriz teatral. É um fenômeno que se construiu ao longo dos séculos, mas que teve seu aperfeiçoamento no século XX,  se desenvolvendo entre os anos 20 e 60 e obtendo seu apogeu entre as décadas de 70 até o início de  90. O que antes era entendido como uma prática sociocultural de homossexuais, travestis e “invertidos” foi se desdobrando em novas e diferentes práticas identitárias que foram se atomizando e se multiplicando em seu seio. Assim, de uma categoria genérica comum, a de travestis que fazem show, passou-se à miríade de tipos de artistas que circulam no espaço artístico: os transformistas propriamente ditos, os artistas covers, as drag-queens, as artistas travestis, as caricatas, as top-drags, os performers, etc.

Assim, o show de transformismo, atualmente, se realiza por meio de uma combinação de técnicas variadas. Estas técnicas se dividem em três categorias: a dublagem (ou outra técnica artística possível), a performance e a produção visual. Sem estes três quesitos não há show.

A dublagem, hoje, é o principal ato de interpretação transformista. É seu “fazer” por excelência; o que não exclui, na atividade artística transformista, outras formas do fazer artístico, como o cantar, o dançar e obviamente, o atuar. A dublagem é uma espécie de atuação pantomímica que foi possibilitada pela cultura de massas e o desenvolvimento da indústria tecnológica. Contudo, na capacidade interpretativa do artista transformista, de combinar as suas emoções às da voz original, reside todo o caráter artístico do show transformista, nos dando a grata impressão de estarmos vendo e ouvindo alguém tão bom quanto o próprio cantor, o dono da voz. Isto se deve ao fazer pantomímico, quando o intérprete deve passar toda a sua emoção sem o uso das palavras e de sua voz, utilizando para isto o corpo, o gestual, e principalmente, a perfeita sincronia entre as palavras da canção e o mover dos lábios. Esse aspecto fica bem claro quando podemos perceber a diferença do transformista com o artista cover, por exemplo. Geralmente, quando vemos um artista cover idolatramos muito mais o artista “copiado” do que o artista que “copia”. Com o transformismo idolatramos os dois.

A performance, além da dimensão corpórea que lhe é inerente, o uso do corpo através da dança, do gestual e do mis-én-scene, estabelece também uma relação que o artista mantém com o espaço a sua volta: o palco e o espectador. A performance, portanto, serve  como uma forma de comunicação entre o artista e seu público, reafirmando o que muitos filósofos da arte já nos disseram, que a função primeira da arte é nos colocar em contato com nosso próprio mundo e que quando observamos uma obra de arte ou um evento artístico temos que nos reconhecer nele.

É através da performance que um ator transformista passa para a platéia o seu entendimento da música, ou mesmo dá à canção um novo entendimento ou interpretação. Às vezes, na intensidade de um simples mexer de uma mão podemos sentir toda a emoção que um artista está sentindo ao dublar e está querendo passar a seu público. Ou então a performance pode assumir proporções mais teatrais, como quando vi um artista, certa vez, dublando Shirley Bassey com a música This is my life. O artista entrava em cena vestido de mulher e uma bolsa tipo viagem. Durante a música o artista ia se despindo e tirando sua maquiagem e colocava tudo dentro da bolsa. O artista estava se "desmontando", ou seja, saindo da persona feminina e voltando a ser um homem. No final, já vestido como homem, juntamente com a letra da música que dá nome a canção, o artista mostrava a bolsa cheia das roupas femininas para a platéia, como quem dizia "Esta é minha vida". Era lindo!


A produção visual, que congrega as questões plástica e estética, está relacionada diretamente com as técnicas do transformismo em si: a transformação por meio do uso de maquiagem, perucas, roupas, enchimentos e acessórios que garantam beleza e verdade artística ao show. É o elemento de impacto, aquele que o público vê. Numa produção transformista, a produção exigida deve ser rica, brilhosa e exuberante. Como já ouvi um artista comentar: ‘quem gosta de miséria é intelectual, ‘viado’ gosta é de produção”. Num primeiro momento é através da produção que podemos diferenciar um artista transformista de uma drag queen. As produções transformistas, geralmente, são extremamente vistosas e luxuosas, com vestidos de gala bordados com pedrarias, com muito brilho, plumas e muito glamour. A inspiração para o vestuário e produção transformista nos remete diretamente aos grandes espetáculos do Teatro de Revista.

A produção também está fortemente ligada a outra manifestação da arte transformista: os concursos de beleza. A importância desse tipo de evento é tamanha que há um concurso famoso no Brasil, já institucionalizado e respeitado sendo reconhecido pela mídia brasileira como um evento importante. É o Miss Brasil Gay e no  ano de 2009 esteve em sua 33ª edição. Muitas artistas gaúchas, como Misses Rio Grande do Sul, já foram particpar desse evento, que acontece anualmente lá em Juiz de Fora/MG. Entre elas estão Christiny Bastos e Dolly Blond. Outro concurso que marcou época, pelo menos aqui em Porto Alegre foi o Glamour Gay. São concursos muito disputados que seguem rígidas regras de participação, como por exemplo alguns vetam a participação de travestis, sendo estes concursos destinados apenas a transformistas. Já outros permitem. E outros ainda só permitem a participação de travestis. Nesses concursos a palavra-chave é justamente produção. Os vestidos são luxuosíssimos com muitas predarias e bordados. A maquiagem e os cabelos ou perucas devem estar impecáveis. A exigência desses quesitos nessas horas é muito maior que para um show transformista e a exigência da semelhança com uma mulher é que conta pontos, além da beleza, graça, leveza, e obviamente, o andar na passarela. A origem da relação da arte transformista está na própria razão de ser do transformismo, em transformar um homem numa mulher bela e glamourosa, além do fato de que, quando o transformismo estava se desenvolvendo também estavam nascendo no Brasil os consursos de Miss.



É por estas questões que tentei trazer aqui à discussão, que eu afirmo e reafirmo que o transformismo é sim uma arte. Uma forma de expressão cultural que sempre foi considerada de menor ou nenhuma importância por se tornar expressão de um grupo social que foi historicamente discriminado e hostilizado em nossa cultura. Por isso a intenção deste blog, apresentar a vocês, um pouco do universo do transformismo, pelo menos o de Porto Alegre, para que se possa minimizar o preconceito e valorizar esta arte como qualquer outra forma de arte, comunicação e expressão do ser humano.






Abaixo: um vídeo do ator-tranasformista norte-americano Randy Roberts que traduz um pouquinho o que expus aqui e que me lembrou, em muito, os shows que assisti aqui mesmo em Porto Alegre, no final da década de 80 e início da de 1990.





5 comentários:

  1. Luciano, seja sempre bem vindo no blog Para uma menina com uma flor. Estou especialmente aqui para agradecer o comentario. O texto foi otimo mesmo! Apareça sempre e sempre.
    Beijãozão.

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  2. Ola Luciano saiba que seu comentario so vem a inautecer sobre o trabalho tanto de ator transformista como da rdga queen, parabens e precisamos mais de pessoas com esta abertura esclarecedora na "sociedade", luxo puro, carinhosamente, Drag Brigitte (Curitiba)

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  3. CHARLENE VOLUNTAIRE14/10/09 02:38

    AIAI ... ADORO PESSOAS INTELIGENTES E PRINCIPALMENTE PURAS COMO TU. AMIGO LU, SEI QUE FAÇO PARTE DA HISTÓRIA A QUAL TU TÃO BEM ESTAS CONTANDO.POREM TUDO DEPENDE DE COMO SE TRATA DO ASSUNTO... AGRADEÇO O CARINHO QUE SINTO NAS ENTRE LINHAS !!! MAS QUERO REGISTRAR: SALVE SALVE REBECCA MACDONALD'S O ÍCONE MAIOR DA NOITE G DO RS

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  5. A Arte do Transformismo em Portugal

    Esta obra fotográfica, foi lançada pela mão da editora Mindaffair, trabalho inédito em Portugal realizado pelo fotógrafo Fernando Branquinho, foi desenvolvido durante dois anos em sucessivas sessões fotográficas onde, para tal, desfilaram no seu estúdio trinta performers de transformismo de norte a sul do país.
    Por outro lado,esta obra pretende ajudar a desmistificar e aproximar o público menos conhecedor destes entertainers. Trata-se de um testemunho actual para memória futura, com os textos da jornalista Lia Pereira contextualizando as imagens nas mais diversas sociedades e culturas mundiais tendo em conta a sua importância e impacto social em forma de resenha histórica até aos nossos dias.
    O Autor Fernando Branquinho, nascido em Moçambique, é artista de múltiplas disciplinas: músico, professor e fotógrafo. Tem dedicado muita da sua vida à fotografia, munindo-se da sua sensibilidade criativa e percepção humanista como ferramenta para interpretar através das suas imagens os temas que regista.

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