quarta-feira, 17 de maio de 2017

Salve Caríssimos!!!


Bem,  após a postagem anterior a respeito das possibilidades de ocorrência de diferentes fenômenos de transgeneração em diversas culturas, sociedades e épocas distintas, começo, agora, a publicar uma série de textos com conceitos, em sua maioria antropológicos e filosòficos acerca dos fatos e instituições que propiciaram o desenvolvimento de vários fenômenos de transgeneração em nossa cultura, com o foco final, é claro, no transformismo. Isso, ainda, antes de entrarmos com as biografias dos artistas nacionais, do Brasil e aqui de Porto Alegre/RS.
A pesquisa que faço tem como foco fenômenos referentes à nossa cultura. Mas qual cultura considero exatamente como nossa? Quando falo em cultura não o faço somente tendo como referência a cultura brasileira (ou as culturas brasileiras...). Mesmo porquê a cultura de nosso país faz parte de um todo maior comungando muitos elementos culturais com outros países e regiões do planeta por terem tido uma origem comum. Assim, quando falo em nossa cultura me refiro à Cultura Ocidental. E quando falamos em Cultura Ocidental, geralmente a relacionamos a uma Europa industrializada e nórdica. Entretanto, devemos estar atentos às raízes e influências que esse continente recebeu da Ásia e da Africa, através do Oceano Atlântico e do Mar Mediterrâneo e das civilizações antigas ao seu redor e que muito influenciaram nossa cultura. Entre tantas, cito a grega, a romana, a hebraica, a árabe, etc. E entre estas influências, a que aqui nos interessa, é exatamente a forma como essas civilizações antigas lidavam com as questões de gênero e como nós, brasileiros, herdamos através dos portugueses, seja pelo viés ibérico, seja pelo viés judaico-cristão.
Para começarmos a discutir essas questôes, podemos começar com dois conceitos bem bàsicos: o de sexo e gênero!
Assim, ao colocar conceitos sobre sexo, gênero e identidade, o farei tendo por base como essas questões foram construídas e se constituindo dentro da Civilização Ocidental de forma generalizada e na cultura brasileira de uma forma mais particularizada. Como contraponto tentarei trazer exemplos de outras sociedades, principalmente coletivistas (ou holísticas), isto é, sociedades em que o todo social, o coletivo impõe suas normas, aquelas em que o indivíduo só se enxerga através da coletividade da qual ele faz parte. Geralmente são sociedades tribais, simples (no sentido de sua estrutura econômica).
Neste texto abordarei as questões de sexo e tambèm de gênero e agora o farei com maior esclarecimento do assunto, procurando demonstrar como se elaborou e ainda se processa a definição, a apreensão e o pertencimento de sexo em nossa sociedade: a Ocidental. Porém, antes de falarmos de gênero, vamos primeiro esclarecer alguns conceitos que o embasam: sexo, gênero, identidade, orientação e comportamento sexual.
Sexo (o atributo anatômico-biológico, não o ato) é um conjunto de características anatômico-biológicas que são diferentes em homens e mulheres e que os habilitam para a reprodução. Assim, temos características primárias, que são o aparelho genital conjuntamente com ovários e útero nas mulheres e testículos nos homens e as secundárias, que são as hormonais. Por incrível que pareça, a ideia de sexo como fator diferenciador é recente na história da humanidade, datando do século XVII e XVIII. Este pensamento surgiu a partir das descobertas científicas no campo da medicina por meio dos estudos de anatomia através da dissecação de cadáveres. Assim, o corpo de homens e mulheres começou a “ser construído” até chegar aos dias de hoje mais ou menos como o entendemos hoje. Acontece que, os cientistas lá da Revolução Científica, não exatamente viram nisso novas descobertas. Pelo contrário, seu “olhar científico, neutro e objetivo” vislumbrou aquele corpo com um olhar carregado de uma cultura que colocava homens e mulheres em posições diferentes, reforçando a milenar relação assimétrica de poder entre os sexos.
A forma como um determinado grupo humano entende o sexo faz parte dos códigos e simbologias inscritas em sua cultura, em uma visão coletiva e própria de mundo. E isto se aprende das gerações anteriores. O novo sempre olhamos com um certo olhar do passado. Por isso, por maiores e avançadas que tenham sido as mudanças ocorridas nas últimas décadas, ainda jogamos sobre o outro um olhar carregado de códigos ultrapassados e arcaicos.
Na pré-história, há milhares de anos atrás, (talvez atè hoje isso persista culturalmente falando) o mundo se apresentava para os homens carregado de simbologias que eram acessadas por associações. As diferenças entre homens e mulheres não eram percebidas somente pela sua anatomia. A única diferença inquestionável era a capacidade própria das mulheres de serem depositárias da vida já que o homem era o portador dela através de seu sêmen. Por esta característica, à mulher foram associadas uma série de manifestações simbólicas da natureza, por exemplo, a fertilidade, a umidade, a noite, o frio, as trevas, a obscuridade, o túmulo, a casa, o privado. Como a apreensão do mundo se opera de forma binária e relativa, ou seja, aos pares, comparativamente e por oposição, ao homem foram imputadas características opostas: o seco, o dia, o calor, o céu, a claridade, a rua, o público. Um detalhe importante a ser acrescentando é que, como muitos antropólogos acreditam, a mente humana opere binariamente, ou seja, percebe e constrói conceitos aos pares antagônicos. Assim teríamos masculino/feminino, certo/errado, bem/mal, bonito/feio, em cima/em baixo, seco/úmido, entre tantos. E estes conceitos básicos são indissociáveis, pois só conseguimos pensá-los em referência ao outro. O belo só existe porque temos a ideia do feio em comparação. Essas simbologias eram perpetuadas por nossos ancestrais através de mitologias, que eram estórias explicativas do mundo e que eram revividas e vivificadas por meio de rituais. Assim, com o desenvolvimento das primeiras civilizações, as diferenças foram se acirrando, estabelecendo-se como “definitivas” e sendo naturalizadas, isto é, tomadas como naturais. Por isso é que foi reservado à mulher o espaço da casa, do privado e da família enquanto ao homem cabia o domínio da rua, da política, dos negócios. E em cima destas simbologias foram se operando as divisões sociais entre homens e mulheres e foram se construindo e se constituindo as diferenças de gênero.
Gênero aqui entendido como a manifestação social pròpria das diferenças comportamentais estabelecidas entre homens e mulheres de acordo com a cultura em que estejam inseridos. Diferenças estas que ajudaram a criar o mito da superioridade masculina sobre a mulher fazendo crer que havia uma diferença de grau entre ambos. Portanto, foi se estabelecendo uma relação assimétrica de poder entre homens e mulheres, numa sociedade heteronormativa e androcêntrica. Ou seja, onde as normas eram estabelecidas pelas e para as relações heterossexuais com prevalência de poder e domínio do homem sobre a mulher. Muito provavelmente a raiz do preconceito para com os homossexuais masculinos está na ideia de que estes queriam ser como mulheres, o que para um homem era inadmissível, sendo considerado um rebaixamento, já que nesses tempos a percepção da diferença entre homens e mulheres era de grau, não de natureza, isto é, a mulher era tida como inferior ao homem.
Assim, por consolidar a homens e mulheres uma série de características a ele atribuídas, esperava-se de um e outro sexo/gênero, um comportamento condizente com estas características socialmente pré-estabelecidas. Ou seja, da mulher esperava-se uma certa feminilidade, fragilidade, que fosse cordata e gentil, e do homem esperava-se a masculinidade, a bravura, a coragem, que fosse aguerrido e bravo. E com pequenas variações em suas manifestações estes fenômenos foram perpetuando-se através dos séculos por meio da educação das crianças e da forma como se impunha um comportamento a elas por meio do uso de toda uma simbologia de pertencimento de gênero. Então através de vestimentas, acessórios, adornos, artefatos e brinquedos, cores, todos eles indicativos do sexo ao qual pertencia a criança (ou se acreditava e queria que pertencesse) e com o intuito de reforçar o pertencimento de gênero da mesma em relação ao seu sexo. Isto se acirrou enormemente a partir do século XIX quando a ideia de infância foi aperfeiçoada. Qualquer alteração nessas características era vista com no mínimo desconfiança até a total intolerância, variando conforme o lugar e a época.
E para transformar e mudar essa sèrie de configuraçâo de caracterìsticas è mister que se almeje uma mudança naquilo que esperamos e entendemos como mercado de trabalho para mèdicos, afinal, ainda e somente são os mèdicos os profissionais elencados como avaliadores do comportamento humano, visto o grande poder que a ciência ganhou em nossa sociedade e antes de eles de tornarem profissionais da medicina, eles sâo sim, seres humanos e como tais, propensos a uma sèrie de conceitos e prè-conceitos culturalmente arraigados e estabelecidos a-priori, pois ainda sâo os médicos, e somente eles, os profissionais encarregados de julgar e avaliar o comportamento humano, como se fossem juìzes doutores da lei suprema, quase deuses;

Assim precisiarìamos compreender e entender que o saber da ciência e da medicina não è absoluto e que cabem certas relativizações e não seria o ùnico saber do universo devendo-se aceitar as sabedorias nâo tradicionais, como exemplo cito o saber indigena-americano!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sexo e Sexualidade

Salve Caríssimos!!!



Neste texto abordarei questões de sexo, sexualidade e gênero . Já abordei o assunto aqui algumas vezes, em especial no post ABC das Identidades, porém, tentarei agora o fazer com maior esclarecimento do assunto, procurando demonstrar como se elaborou e ainda se processa a definição de sexo, sexualidade e orientação sexual, como se dá a apreensão dos fenômenos relativos à sexualidade e seu desenvolvimento histórico no Ocidente, assim como, a formação dos papéis sexuais em nossa sociedade, ou seja, a construção e o desenvolvimento da ideia de gênero . Porém, antes de falarmos do sexo, vamos primeiro esclarecer alguns conceitos que o embasam.

Sexo (o atributo físico, não o ato), para a Ciência, é um conjunto de características anatomica-bio-fisiológicas que são diferentes em homens e mulheres, nos diferenciando e nos definindo em macho e fêmea, ou homem e mulher e que nos habilitam, principalmente, para a reprodução. Assim, teríamos características, tidas como primárias, tais como o aparelho genital, conjuntamente com ovários e útero nas mulheres e pênis e testículos nos homens e também as secundárias, tais como as hormonais. Por incrível que pareça, a ideia de sexo biológico, como fator diferenciador de homens e mulheres é recente na história da humanidade, datando do século XVII e XVIII. Este pensamento surgiu a partir das descobertas científicas no campo da medicina, após a revolução científica, por meio dos estudos de anatomia, através da dissecação de cadáveres. Assim, o corpo de homens e mulheres começou a “ser construído”, “diferenciado” até chegar aos dias de hoje, mais ou menos como o entendemos hoje, já que antes prevalecia a explicação bíblica e adâmica, explicada no Gênesis, onde Deus teria feito o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, lá no velho testamento no livro da Bíblia. Acontece que, os cientistas, lá da Revolução Científica, não exatamente viram nisso novas descobertas. Pelo contrário, seu “olhar científico”, “neutro e objetivo” vislumbrou aquele corpo, com um olhar carregado por uma cultura que colocava homens e mulheres em posições antagônicas e diferentes, reforçando a milenar e histórica relação assimétrica de poder entre os sexos. Potencializada pelo olhar das culturas cristâ ocidental, muçulmana e israelita, ainda muito presentes na nascente cultura ocidental moderna, e já presente nas culturas romana e grega, um certo olhar religioso. Assim, passaram a compreender homens e mulheres através de uma relação de poder entre os dois, com os homens numa supremacia garantida pelo olhar cultural da história do homem até então. Ao se dissecarem os corpos de homens e mulheres os “cientistas” de então apreenderam os corpos de homens carregados por um certo poder e supremacia sobre o corpo da fêmea, tendo o pênis fálico do corpo do homem um certo poder sobre a vagina feminina. A preferência sexual de homens e mulheres, sua orientação sexual, sempre foi diversificada, mas ao mesmo tempo, preconceituadamente restrita á relação heterossexual, entre homens e mulheres, influenciada por uma ideia principalmente religiosa e cultural. Após isso, com o desenvolvimento da ciência, da medicina moderna, a ideia de gênero sexual, num desenvolvimento da questão social, comportamental de sexo começou a se orquestrada e construída, principalmente com o surgimento da psicanálise, ou psiquiatria, com Freud e outros no final do século XIX e início do século XX, os ditos cientistas de então se valeram da mitologia grega para cunhar e identificar termos e conceitos ligados á sexualidade humana. Exemplo disso é o termo uranismo, de Uano, o deus-céu, construído e idealizado por um ativista alemão chamado de Ulrichs no ano de 1864, para designar um sujeito masculino som psique feminina, emprestado da mitologia grega para designar homens que sentem-se atraídos por indivíduos do mesmo sexo ou gênero social, comportamental, O termo ajudou a construir o conceito de transgênero e transexualidade, no século XX e que ainda são vigentes.  

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Bases do Transformismo - Ocidente e Modenidade


Salve Caríssimos!!!



A pesquisa que faço tem como foco específico fenômenos referentes à nossa cultura, apesar de haver fenômenos semelhantes em outras sociedades, como vimos na postagem sobre transgeneração. Por isso, para maior esclarecimento, preciso delinear as bases que fomentaram a arte transformista no Ocidente, no Brasil e em Porto Alegre.
Mas qual cultura considero exatamente como nossa? Quando falo em uma cultura nossa não o faço somente tendo como referência as especificidades da cultura brasileira (ou as subculturas brasileiras...). Mesmo porquê a cultura de nosso país não é autóctone (original, nativa) e faz parte de um todo maior que comunga muitos elementos culturais com outros países e regiões do planeta que tiveram e/ou têm uma história comum ou que de alguma estiveram ligadas ou em contato. Assim, quando falo em nossa cultura também estou me referindo à Cultura Ocidental.
O Ocidente, para nós cientistas sociais e historiadores, não é somente um lugar geográfico. É muito mais um lugar sociológico e histórico onde se deram e ainda se dão acontecimentos importantíssimos que condicionam(ram) nossas formas de ver, viver, apreender e compreender o mundo.
E o que vem a ser a Cultura Ocidental? Geralmente a relacionamos a uma Europa industrializada e nórdica ou então a algo que nos remeta aos Estados Unidos da América e o conjunto de valores e formas de interpretar e ordenar o mundo proveniente desses países. Entretanto, devemos estar atentos às raízes da Cultura Ocidental. Lembrando das aulas de História, recordaremos facilmente que o berço do Ocidente está na Grécia Antiga e no Império Romano. Foram lá nestas duas civilizações antigas que nasceram as bases de nossa cultura e que ainda nos são caras, tais como a razão, a filosofia, o direito, a democracia, nossa forma de arte, dentre outras. E alguns destes valores greco-romanos foram perpassando a História e atingindo outros povos, através da expansão do Império Romano e destes, depois da formação dos Estados Nacionais europeus, vieram descambar nas Américas. Assim, em termos gerais, Europa (países ao oeste) e Américas (do Norte)formariam o que chamamos de Civilização Ocidental. Esta Civilização é formada por dois troncos culturais distintos: uma germânica e outra latina. A germânica influenciou países como Alemanha, Inglaterra, Holanda, etc. A latina se configurou em países como França, Itália, Portugal e Espanha, dentre outros.
Acontece que em sua formação e história, o tronco latino da Civilização Ocidental recebeu muito mais influências do Oriente do que o nórdico-germânico, através de um contato mais direto pelo comércio no Mar Mediterrâneo, das invasões árabes, do Cristianismo que congrega muitos elementos da religião Judaica e da cultura hebraica, das Navegações Marítimas na Idade Moderna, etc. Muitas dessas influências são oriundas da Ásia (Oriente Próximo) e do norte da África. E entre estas influências, que aqui nos interessam, é exatamente a forma como essas civilizações antigas lidavam com as questões de gênero e que, nós brasileiros, herdamos através dos portugueses, seja pelo viés ibérico, seja pelo viés judaico-cristão (português, no nosso caso). Esta subdivisão da Cultura Ocidental ajuda a explicar porque há diferenças na forma que latino-americanos e habitantes da América anglo-saxônica lidam com as questões de gênero e sexualidade, por exemplo.
Assim, ao colocar conceitos sobre sexo, gênero e identidade, o farei tendo por base como essas questões foram construídas e se constituindo, em termos gerais, dentro do que chamamos Civilização Ocidental e na cultura brasileira de uma forma mais particularizada.
Das várias características que podemos agregar à atual cultura ocidental estão a racionalidade de nosso pensamento, o uso e desenvolvimento de um aparato tecnológico, a força da ciência, os ideais democráticos, a defesa dos direitos humanos e as relações de produção ancoradas num sistema econômico capitalista. Alguns deles ainda são remanescentes dos ideias greco-romanos, outros surgiram e foram ressiginificados a partir de nossa Modernidade.
Aliás, outra categoria de análise importante para apreciarmos a formação e o desenvolvimento desses fenômenos de gênero é justamente a Modernidade. E o que vem a ser a tal Modernidade?
Modernidade é usada para nos referirmos à gênese, o desenvolvimento e a consolidação de vários processos de ordem econômica, social e cultural ocorridos desde o final da Idade Média até os dias atuais. Teve início na Europa mas, atualmente, seus valores se impõem culturalmente a quase totalidade do planeta. Começou com uma gradativa ruptura dos valores tradicionais medievais por meio de um resgate do ideário humanista da civilização greco-romana e da também gradativa ascensão e imposição do ideário liberal capitalista da classe burguesa. É difícil separarmos Modernidade e Civilização Ocidental. E quais são suas características? A civilização greco-romana se esfacelou com a queda do Império e pelas invasões bárbaras, là pelos sèculos V a VI . As populações deixaram as cidades e foram viver nos campos, onde julgavam-se mais protegidas das hordas invasoras e um dos objetivos era tomarem as cidades. Começava a Idade Mèdia, com suas caracterìsticas arcaicas e prè-Modernas. A influência da Igreja Catòlica ainda era muito grande e ela tinha uma influência muito grande nas questôes de gêmero e da sexualidade. Sendo considerado um desvio nessa ordem ou uma anomalia muito grande, quase um pecado. Tida como uma època de trevas para a civilizaçâo ocidental, o mundo ocidental esteve sob o jugo catòlico e qualquer desvio da ordem sexual era tido como anormal e tratado, às vezes, pela inquisiçâo medieval. A homossexulidade jà era muito comum, porèm, ainda era muito restrita. O transformismo , como pràtica, existia, porèm de forma rara, A transgenerâo, era muita rara, porèm existia em alguns pontos isolados, como no Brasil como Luiz Mott jà relatou. Alguns escritores e atè historiadores jà nos relataram dezenas de casos de homossexuais e transgêneros dessa època da història. Alguns casos tornaram-se atè famosos, como por exemplo, a amante do compositor Ferederic Chopin, por ser uma mulher e para tornar-se uma escritora e ser aceita como tal precisou vestir-se e comportar-se como um homem, chamada de George Sand, pois para mulheres certa atividades eram proibidas Por essa època (na idade Mèdia) estes fatos eram atè muito comuns. AS dècadas e os anos foram passando e chegamos, digamos, ao nascedouro da modernidadde, A Revoluçâo Francesa e a consolidaçâo da Europa e das Amèricas. A partir das Revoluçôes Francesa e Industrial o mundo começou a tornar-se menor. A Ciência e a Medicina jà haviam tido sua revoluçâo (sèculo XVII) e muito se desenvolveram a partir de entâo influenciando muito as idèias a partir de entâo.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Bases da Arte Transformista 2 - Cultura




Salve Caríssimos!!!



Nossa! Quanto tempo estive fora do blogue!
Não pensem que abandonei meu projeto. Pelo contrário! Estive envolvido profissionalmente com outras pesquisas e, na medida do possível, tentava me dedicar as leituras necessárias para um aprofundamento nas questões de gênero e da arte transformista. Achei isso necessário pelas tantas procuras que tive, através de meu e-mail, de estudantes das mais diferentes áreas interessados em diferentes aspectos relativos à arte transformista. E pelo fato dos leitores virem dos mais diferentes campos de estudo achei necessário apresentar conceitos mais gerais para um melhor entendimento. Principalmente aqueles mais relacionados às Ciências Sociais e, em especial, à Antropologia.
Assim, depois de ter ficado esse tempo sem postar nada, quando a última postagem foi a respeito das possibilidades de ocorrência de diferentes fenômenos de transgeneração em diversas culturas e épocas distintas, começo, agora, a publicar essa série de textos acerca de fatos e instituições que foram basais e propiciaram o desenvolvimento de vários fenômenos de transgeneração em nossa cultura, com o foco final, é claro, na arte transformista. Isso, ainda, antes de entrarmos com as biografias dos artistas aqui de Porto Alegre/RS.
Portanto, como um dos primeiros desta série de conceitos, falarei, entre outros, sobre o conceito de Cultura por ser a maneira como enxergo os processos de transgeneração e por ser a linha mestra, digamos assim, das minhas análises; apesar de tangenciar um pouco o propósito do blogue, pois, afinal, tanto a sexualidade quanto as identidades de gênero nada têm de naturais, são totalmente influenciadas pela cultura e, através dela, manifestadas.
Entretanto, deixo claro que as informações aqui colocadas sobre cultura e outros conceitos afins estão propositalmente simplificadas. Descreverei da forma mais básica possível a conceituação antropológica, pois, o conceito de cultura foi se aperfeiçoando, na medida em que a Antropologia é uma ciência e, como tal, passa a se processar em paradigmas e teorias, até mesmo para dar conta da complexificação das sociedades. Também procurarei escrever de forma clara, para que todos entendam, evitando o “antropologuês”.
Bom, antes de mais nada, é preciso que se fale da Antropologia. Que ciência é essa, afinal, e por que a utilizo em minhas análises?
Bem, basicamente Antropologia pode ser definida, como uma ciência da área das humanas, próxima da História e da Economia, pertencente ao campo científico denominado de Ciências Sociais, portanto, "irmã” da Sociologia e da Ciência Política, que estuda o homem em sociedade, a humanidade em seu comportamento. Porém, não o comportamento do indivíduo como a Psicologia faz, e sim, o comportamento de grupos humanos, sejam eles de travestis, mulheres negras, comunidades urbanas, tribos indígenas, operários e camponeses, etc, ou então expressões do humano em eventos, como o carnaval, festas populares, religiosidade, ou ainda, os usos e apreensões do corpo, sexualidades, etc. A Antropologia divide-se em dois ramos: a Antropologia Física, que estuda o esqueleto humano e sua evolução biológica, portanto, próxima à Paleontologia, mais restrita à comunidade científica norte-americana e a Antropologia Social ou Cultural, afiliada a um paradigma europeu que separa Natureza e Cultura e que, desassociada da Biologia, tem como objeto questões sociais e culturais do Homo Sapiens-sapiens. No Brasil o campo científico da Antropologia filia-se ao paradigma europeu e é sobre esta Antropologia que tratarei, chamando-a, aqui, simplesmente de Antropologia.
Nasceu a Antropologia na segunda metade do século XIX, dentro do processo histórico conhecido como Imperialismo, a partir da necessidade das potências europeias, especialmente Inglaterra, França e Alemanha, de conheceram os povos que dominavam na África, Ásia e Oceania. Tendo como foco de estudo, inicialmente, os povos autóctones, ou os chamados nativos, atualmente ela se volta ao estudo da humanidade em geral. Hoje, o “nativo” tanto pode ser o indígena da Amazônia, um habitante de Copacabana, um punk ou, até mesmo, um torcedor de futebol. Superou seu passado a serviço da dominação e, por muitas vezes, presta-se ao estudo e reconhecimento dos direitos das minorias.
Mesmo sendo o/a Homem/Mulher uma unidade biológica em toda sua diversidade étnico-racial, o comportamento humano expressa-se em uma enorme variabilidade. Por isso um dos focos da Antropologia é justamente a alteridade (do latim alter = outro), isto é, o outro e sua diferença em relação ao “nós”. E é justamente no estranhamento dessa diferença que começa “o fazer antropológico”. O reconhecimento e o estudo do “outro” e suas especificidades. Especificidades estas dadas pela cultura.
A forma como um antropólogo trabalha é chamada de etnografia, que consiste, basicamente, de trabalho de campo (visita ao seu “objeto” de estudo) com observação participante, quando o pesquisador faz observações das realidades e subjetividades locais, segundo as teorias antropológicas, anotando em seu diário de campo e complementando com entrevistas semi-dirigidas, narrativas e histórias de vida.
A Antropologia (Anthropos = homem / logos = razão), difere-se de outras ciências justamente por ter como objeto de estudo aquilo que é próprio do Homem/Mulher e nos diferencia de outros animais: a Cultura. Sim, é a cultura que nos faz “animais ditos superiores” e não a racionalidade como muitos ainda supõem. Alguns animais conseguem formar sociedades, chegam a utilizar artefatos e modificam o ambiente à sua volta. Mas o ser humano é o único que dá significado e transforma aquilo que produz. Isto é Cultura.



Cultura geralmente é entendida no senso comum de duas maneiras: formas artísticas institucionalizadas e reconhecidas da expressão de um povo (muitas vezes interpretada como o aparato expressivo de uma elite erudita em contraposição ao folclore, típico do povo) e, também, como o nível e grau de ilustração e conhecimento acumulado de um indivíduo. De certa forma, nenhum dos dois conceitos estão errados, apesar de haver consequências subjetivas negativas pelo uso desses conceitos e não é intenção minha, aqui, me aprofundar nessas questões. Contudo, para nós, cientistas sociais, principalmente antropólogos, estudantes da Cultura por excelência e essência profissional, o sentido do termo é muito mais abrangente e complexo.
A palavra Cultura e sua conceituação começaram a ser desenhadas no século XVIII. Pensadores alemães utilizavam a palavra Kultur para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade. Já os franceses utilizavam a palavra Civilization quando referiam-se às realizações materiais de um povo. No final do século XIX, um antropólogo britânico, Edward Tylor (1832-1917) criou a palavra inglesa Culture e, consequentemente, o primeiro conceito de Cultura, numa espécie de síntese das duas outras palavras e suas respectivas ideias. Porém, durante muito tempo, cultura foi sinônimo de civilização, progresso, desenvolvimento e comportamento “refinado”, típico de uma elite. Por isso, ainda hoje, muitos ainda falam em cultura erudita e cultura popular, hierarquizando-as numa relação desigual.
Cultura, no sentido científico, é uma categoria intelectual de análise de dada sociedade, povo, comunidade ou coletivo humano. Refere-se a uma rede ou teia de códigos compartilhados através da qual as pessoas de um dado grupo sentem, veem, pensam, (re)significam, interpretam, ordenam, classificam, reproduzem e modificam o mundo e a si mesmas. Essa rede compartilhada no e pelo coletivo é repassada dentro de uma mesma geração ou através de várias por meio das relações sociais, da educação, da socialização e/ou da endoculturação, de forma dinâmica, não-estática e, portanto, sujeita aos processos da História, ao tempo.
Complexo? Simplificando: cultura pode ser definida em termos gerais como o conjunto de leis, valores, crenças, comportamentos e hábitos, usos e costumes e produção material e simbólica (técnica, trabalho, artes, linguagem, etc) de um determinado povo ou agrupamento humano.
No final do século XIX e primeiras décadas do XX, os cientistas acreditavam que fatores biológicos e geográficos eram determinantes na cultura. Hoje, sabemos que em nenhum momento a geografia do lugar em que o homem vive ou nasce, assim como as características próprias da espécie herdadas geneticamente, não determinam o comportamento. Assim nos parece falacioso falarmos que o brasileiro, pelo simples fato de ter nascido na região conhecida por Brasil, é um povo trabalhador ou que aqui houve intensa miscigenação racial por causa do clima tropical e que o contato sexual entre brancos, índias e negras foi propiciado pelo sol dos trópicos. Outra falácia é aquela propagada por muitos que escrevem ou comentam sobre o comportamento de homens e mulheres como algo do tipo: “mulheres são de Vênus e homens são de Marte”, ou que mulheres teriam uma noção mais espacial que os homens, ou ainda, que seriam mais ciumentas. Diferenças de comportamento entre os sexos ou lugar de nascimento devem-se à caraterísticas culturais e não ao seu aparato biológico.



Outro conceito importante dentro da Antropologia é o de Relativização. Pesquisadores ocidentais ao estudarem diversas sociedades em épocas e lugares variados puderam perceber a enorme diversidade de costumes e crenças dentre os povos do planeta. E a maioria desses costumes eram completamente diferentes dos seus. Assim, não compreendiam essas diferenças e agiam preconceituosamente em relação a esses povos. Isso se devia a crença de que nossa cultura ocidental era, em si, “A Cultura” do Homem e de toda a Humanidade, o estágio evolutivo final de toda e qualquer cultura, ou seja, índios e aborígenes um dia seriam e viveriam como nós, como se eles fossem, na verdade, um reflexo de nosso passado de “civilizados” parados no tempo.
Nos princípios da Antropologia, pesquisadores europeus, chamados evolucionistas, pesquisavam em lugares onde ainda houvesse culturas “originais”, autóctones e pensavam a cultura como “algo” que ascendia linearmente. Classificavam os povos em selvagens, bárbaros e civilizados com base no grau de desenvolvimento de seu aparato técnico. A visão de que o desenvolvimento de uma sociedade está dado em seu aparelhamento técnico-científico é algo bem próprio do pensamento ocidental. Porém, desde as primeiras décadas do século XX esse pensamento vem sendo contestado e hoje é negado. E atualmente, quando falamos em evolução humana, nos referimos à questões mais biológicas da espécie. Quando os pesquisadores e antropólogos passaram a compreender que sua cultura não é absoluta ou universal, nem superior às outras, concebeu-se o que denominamos de Relativização.
Relativizar, portanto, é colocar dois conceitos numa relação horizontal e equipará-los. Significa compreendermos, por exemplo, que não existe UMA verdade, mas várias e que “minha” verdade pode ser diferente da de outro. Quando passamos a compreender melhor este conceito e assimilá-lo em nossos pensamentos, apreensões de mundo e colocações a tendência é que nosso preconceito em relação à diversidade e a alteridade diminua.


Colado ao conceito de relativização vem outro importante para pensarmos a questão da alteridade. Trata-se da ideia de Etnocentrismo, que seria a tendência a olharmos o outro e o diferente através do olhar de nossa própria cultura, percebendo, compreendendo e julgando-o segundo valores e princípios de nosso sistema cultural. A Cultura, às vezes, funciona como as lentes de um óculos, permitindo, ou não, que enxerguemos o que está à nossa frente. Quando culturas muito diferentes estão em relação, o etnocentrismo se evidencia em choque cultural e podemos ficar, muitas vezes, horrorizados com as diferenças entre as culturas dos povos. Mas quando o choque se dá dentro de nossa própria cultura? Isso pode acontecer em culturas como a nossa, numa sociedade complexa, onde convivem diversas subculturas e que também pode estar influenciada por culturas “alienígenas” ou estranhas a ela, formando, o que chamei inicialmente, de teia ou rede complexa de códigos compartilhados. Só que muitas vezes, esse compartilhamento de códigos se dá de forma “invisível”, não estando explícito a totalidade de determinada sociedade, fazendo com que a lógica de comportamentos de alguns grupos seja desconhecida ou muito estranha a outros, podendo gerar, assim, o preconceito.
Por isso que muitas vezes é insuficiente combater o preconceito de um indivíduo apenas. É importante lutarmos contra todo um sistema cultural que impõe valores e visões de mundo que vão de encontro às minorias. E não é uma tarefa fácil. A cultura age coercitivamente na mentalidade das pessoas, isto é, os sujeitos, desde a infância, internalizam a forma de pensar dominante em seu coletivo. Por isso encontramos, entre os gays, formas de pensar e visões de mundo que vão de encontro à própria realidade homossexual, já que gays são educados dentro de uma cultura heteronormativa, isto é, com normas próprias das relações heterossexuais.
O conceito de cultura é importante ser explanado para deixar claro como se processam os fenômenos de transgeneração e o quanto estes estiveram influenciados por uma cultura homossexual, no caso brasileiro. Defendo, por meio de minhas análises, que a arte transformista só pôde surgir, nas cidades brasileiras, em função de uma realidade de gueto a que os homossexuais estavam submetidos até os anos de 1990. Confinados e restritos a poucos espaços de sociabilidade, gays, lésbicas e travestis desenvolveram um complexo sistema social e cultural de relações dentro do que chamamos de cultura urbana e que com esta compartilhava muitos aspectos, porém, pela comunidade homossexual ressignificados. Um desses aspectos, é justamente, a arte transformista, um microcosmos do mundo do glamour dos palcos e do cinema que parece ter dado liga a uma identidade homossexual durante o século XX.
Agora que o conceito de cultura está brevemente explanado, passo, nas próximas postagens, a tratar das noções mais específicas de nossa cultura no que concerne à sexualidade e aos gêneros.




segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Bases da Arte Transformista 1 - Transgeneração






Salve Caríssimos!

Bom, falar em história do transformismo é algo bastante complexo. Não há uma história universal do transformismo que seja comum a todos os povos e culturas que já existiram sobre a face da terra. Não há uma linha histórica que comporte um encadeamento de fatos numa dinâmica evolutiva e que poderiam nos conduzir à contemporaneidade do fenômeno. Mesmo porque, cada contexto cultural e histórico produziu transformismos e outros fenômenos transgêneros com qualidades e características diferentes. E, portanto, fica difícil definir exatamente o que é transformismo. O fenômeno que se processa atualmente, desde a primeira metade do século passado é mais fácil para nós contextualizá-lo. Mas e outros casos em outras épocas? Poderão ser chamados de transformismo? O conhecimento que se tem acerca do assunto ainda é pouco. Até mesmo porque, o que existe na verdade é um conjunto de elementos culturais e históricos constitutivos do transformismo que se manifestavam isoladamente até o século XIX não havendo necessariamente uma ligação entre eles e que, somente no século XX é que esse conjunto de coisas pôde se reunir possibilitando a gênese do fenômeno. Esses elementos são: os vários fenômenos de transgeneração surgidos em nossa cultura e em outras, o teatro e os rituais de transgressão e inversão de papéis e status, a indústria cultural de massas e a homocultura que se estabeleceu num desenvolvimento urbano no final do século XIX. Assim, nestes próximos textos vamos falar resumidamente de vários fenômenos de transgeneração para que possamos entender melhor a transgeneração de uma maneira geral e o transformismo de modo mais particular. Para poder entender melhor o transformismo na Cultura Ocidental precisamos entender melhor os fenômenos transgêneros, de que maneira eles podem vir a surgir e que características eles podem assumir. Os outros assuntos eu abordarei em postagens separadas.
Bom, para começarmos é bom frisar que o termo transgênero surgiu recentemente nos estudos científicos e acadêmicos dos anos 90 e tem servido como um grande guardachuva conceitual abrigando uma grande quantidade de fenômenos de “transgressão” de identidades de gênero, isto é,  aquelas identidades de gênero que estariam dissociadas da identidade sexual, inata e, portanto, “natural”. Considera-se como transgêneros os fenômenos de travestis, transexuais, transformistas, drag queens e crossdressers.
A palavra ainda não foi totalmente aceita e assimilada por considerar como critério de análise este conceito amplificado baseado apenas nessa tal “transgressão” de identidades e não estaria considerando, por exemplo, as questões políticas. Por isso, transexuais e travestis não se sentem exatamente qualificadas como transgêneros pelo fato desta palavra lhes retirar sua visibilidade política necessária na luta contra o preconceito, colocando-as lado a lado com transformistas e drag queens que não teriam as mesmas necessidades. Por isso a sigla do movimento homossexual ganhou 03 (três) “T”: LGBTTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros).
A partir de agora citarei alguns exemplos de fenômenos que chamarei de transgêneros exatamente porque estarei usando este critério único de análise. Isto é proposital, pois assim, ao trazê-los à tona, posso incentivar a crítica e a discussão e também uma nova forma de pensar e ver o fenômeno. São casos que aconteceram ou acontecem em sociedades tidas como simples, tradicionais e, portanto, sofrem uma influência cultural coercitiva muito maior que em uma sociedade industrializada, moderna e individualizada. A apreensão dos significados e simbologias culturais se dá em outro nível passando pelo coletivo, pelo todo da sociedade, ou seja, não se trata, exatamente de escolhas individuais.
Houve uma tribo indígena no interior do Paraguai, os guaiaqui, que estruturava seus papéis sociais e sexuais dicotomicamente. E isto era simbolizado por meio de seus principais instrumentos de trabalho: o arco e o cesto, já que a divisão do trabalho era dada sexualmente. Aos homens, que eram caçadores, lhes era imputado o uso do arco. Às mulheres, coletoras de frutas e raízes, lhes competia o manuseio do cesto. O uso e até mesmo tocar no instrumento pertencente ao sexo oposto era proibido. Isto funcionava mais ou menos como o carrinho e a boneca com as crianças de nossa cultura. Um antropólogo nos relata dois casos de homens guaiaqui que não podiam caçar. O primeiro, chamado Chachu não possuía um arco e não sabia caçar. Era viúvo e não conseguia esposas porque não possuía arco. Como não tinha arco não podia acompanhar os outros homens da tribo, portanto, precisou pegar um cesto e acompanhar as mulheres. Por causa disso era motivo de deboche e chacota entre todos na tribo, inclusive as crianças, chegando a perder o respeito. O segundo caso, do índio Krembéji, aconteceu de forma diferente. Krembéji também não possuía arco e por isso não podia estar entre os homens. Como trata-se de uma sociedade indígena e portanto estruturada coletivamente, não havendo espaço para a escolha individual, Krembéji também juntou-se às mulheres e pegou no cesto, porém, deixou os cabelos crescerem e passou a deitar-se com outros homens da aldeia num papel sexual passivo, isto é, para eles, transformou-se numa mulher. Os homens que o procuravam nem por isso eram considerados menos homens. Porém, Chachu, o outro membro da tribo que perdeu seu arco, este sim, era considerado menos homem, enquanto Krembéji era tratado como uma mulher, nem melhor nem pior que as outras. Coisa que talvez não acontecesse se ele manifestasse o desejo de ser ativo sexualmente mesmo que se comportasse socialmente como uma mulher.
Outro caso bem interessante para o fenômeno da transgeneração são as berdaches, integrantes de tribos indígenas da América do Norte. As berdaches são sujeitos, homens e mulheres, que dissociam os papéis sexuais dos papéis sociais de gênero. Relatos de viajantes e missionários que percorreram as regiões que hoje compõem os Estados Unidos e o Canadá contam o quanto essas berdaches eram valorizadas em suas sociedades. Às mulheres que se transformavam em homens lhes eram atribuídas força e destreza na caça genuínas; e os homens que viravam mulheres eram valorizados por sua beleza e graça. A importância dessas berdaches era tamanha que lhes creditavam o poder da cura e da profecia. Algumas viravam inclusive xamãs, espécie de mistura de guia espiritual e médico e que eram altamente valorizadas entre os membros da tribo. Infelizmente com a chegada do colonizador branco, a prática foi totalmente proibida e as berdaches, quando não eram simplesmente assassinadas, eram proibidas de manifestarem-se vestidas como o sexo oposto.



Outra manifestação de transgeneração são as hijiras na Índia e também em Bangladesh. Não se sabe muito sobre elas no Ocidente. Sabe-se que são homens que vestem-se como mulheres, porém são consideradas como um terceiro sexo. Algo como os transexuais aqui no Ocidente, mas sem haver a vaginoplastia, apenas a castração. A maioria não tem nem seios. No entanto, são indivíduos bastante respeitados, tendo o mesmo status que os idosos tem nesses países, ou seja, de pessoas respeitadas e experientes sendo considerados tão especiais que lhes pedem bênçãos em cerimônias festivas rituais, como batizados e casamentos. O curioso é que é em troca de dinheiro que se dão essas bênçãos. E assim é a forma que as hijiras sobrevivem na Índia. Curioso, não? A forma “encontrada” culturalmente para acomodá-las num mercado de trabalho! Elas prestam homenagem a uma deusa hermafrodita chamada Bahuchara Mata que pode lhes exigir, segundo a sua crença, que mantenham o celibato. Vale lembrar que não há relação com a homossexualidade, pois muitos são homens impotentes que por vergonha de não poderem procriar preferem tornar-se hijiras. Elas vivem e andam sempre em grupos. 



Aqui, no Brasil indígena, précolonial, nas tribos tupinambás, houve o fenômeno das tibiras, que eram os homossexuais masculinos, e que por serem homossexuais deviam comportar-se como mulheres; e havia também as çacoaimbaeguiras, as homossexuais femininas que comportavam-se como homens e, nos dizem relatos da época, que elas seriam as famosas guerreiras amazonas. Estes dois fenômenos também eram considerados especiais entre os indígenas, eram tidos como abençoados pelos deuses porque possuíam as almas dos dois sexos no mesmo corpo.
Estes exemplos de casos só nos mostram o quanto as sociedades humanas encontram formas muito variadas de lidar com a sexualidade e com os papéis tanto sexuais quanto sociais de gênero. Assim como nos mostram que não há vínculo direto da homossexualidade com os papéis sexuais e da transgeneração com os papéis sociais. No primeiro exemplo, dos índios guaiaqui, o papel da mulher é tão importante quanto o do homem, por isso não foi nenhuma desonra para Krembéji tornar-se uma mulher. O problema seria ele não se enquadrar no binário masculino/feminino, como aconteceu com o outro índio, Chachu, que não se tornou nem um homem nem uma mulher. Entre os índios norte-americanos e brasileiros também não havia problemas em se portarem como se fossem do outro sexo, desde que se enquadrassem no esquema binário de gênero. Já entre as hijiras pôde haver uma saída à condição binária talvez porque a sociedade indiana não esteja tão alicerçada assim num modelo binário. E também porque a espiritualidade hindu seja mais leve e livre. O terceiro sexo pode ser entendido como um karma.
Em relação à prática social da dissociação de gênero e sexo, ou transgeneração, o que podemos afirmar é que este fenômeno se manifestou em muitas culturas que já existiram além das que atualmente existem. O que vai influenciar seu surgimento, sua dinâmica, relevância e forma de ser conduzida e interpretada dentro de quaisquer sociedades é o contexto social e cultural em que este fenômeno se insere, a forma como esta sociedade estrutura seus papéis sexuais e sociais e a forma como são simbolizados esses mesmos papéis.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Arte Transformista





 Salve Caríssimos!

            Venho falando aqui, neste espaço, do transformismo, assim como dos transformistas. Mas o que vem a ser exatamente o transformismo? Será que o transformista pode ser considerado um artista? Será que podemos chamar o transformismo de arte? Não será, somente, uma combinação de várias técnicas? Não seria, afinal, apenas mera imitação?

            Pesquisando na internet, pude constatar que pouco se coloca no ar algo sobre o assunto. Pelo menos algo que se possa, digamos assim, extrair uma definição mais precisa, mesmo que breve, a respeito do tema neste blog tratado. Dê uma “googada” com a palavra transformismo e verá a quantidade de coisas diferentes que podem aparecer. Desde teorias da genética até conceitos da ciência política, passando por leis da matemática e até, pasmem, lendas medievais de lobisomens e vampiros, além de shows de mágica, onde uma mulher troca de roupas num piscar de olhos. Mas show ou espetáculo transformista, muito pouco, quase nada. Em compensação se "googar" com a palavra travestismo, aí aparece muita coisa, porém confusas.

           Antes de qualquer coisa, é bom começarmos, então, por esclarecer o que, aqui, nos interessa. Poderemos entender melhor a questão se a analisarmos por dois pontos de vista. Somente tendo a priori a idéia das duas dimensões do fenômeno é que poderemos analisá-lo melhor.

Em primeiro lugar, o transformismo pode ser reconhecido como uma das práticas sociais de transgeneração, isto é, uma transcendência e/ou uma transgressão das categorias de gênero, quando alguém que, reconhecido como pertencente a um sexo biológico (homem ou mulher), representa por razões diversas e em circunstâncias variadas um papel social diferente. É o simples ato de alguém transitar e “brincar” entre identidades polarizadas e historicamente estabelecidas como modelo para nosso padrão de convivência, assumindo e representando, então, personas diferentes. Atualmente, o termo transformista serve para definir um padrão específico de comportamento transgênero; de uma categoria de sujeitos que não utilizam a transgeneração em seu dia-a-dia, mas somente em eventos específicos, tais como performances artísticas e concursos de beleza transformista (mais detalhes no post ABC das Sexualidades). Se olharmos a questão somente sob este aspecto a compreenderemos apenas como uma simples prática de indivíduos de um determinado sexo que se portam como se do outro sexo fossem, por meio de uma transformação ou, às vezes, uma indefinição, ou ainda, uma ambivalência dos gêneros masculino e feminino. Se olharmos por este aspecto único, acabaremos por compreender erroneamente o fenômeno, dando margem a uma compreensão estereotipada e reducionista. Muito provavelmente olhar a questão por este único ângulo é que permite a nossa sociedade confundir toda uma série de fenômenos atuais e “colocá-los sob o mesmo grande guarda-chuva conceitual”. Tanto que a palavra transgênero, ainda não dicionarizada no português, e que serviria para abarcar todos os fenômenos trans, como travestis, transexuais, crossdressers, drags e transformistas, encontra certa resistência por parte desses coletivos por não dar conta das especificidades identitárias de cada grupo sociopolítico.

Em segundo lugar, o transformismo deve ser analisado também como uma prática histórica, artística e performatizada de alguém que se utiliza da transgeneração como suporte para essa mesma prática artística. É o famoso show transformista, que tem suas raízes no fazer teatral, numa homocultura, na cultura de massas e sua indústria cultural e na prática social trans. De maneira genérica, compreende os concursos de beleza, os shows ou atividades artísticas de palco, realizadas por transformistas, drag-queens, artistas travestis e performers. Há uma imitação e uma interpretação performatizada de uma determinada personalidade ou personagem, geralmente cantoras e grandes estrelas do cinema. Atualmente estão dizendo que certos transformistas e drag-queens andam fazendo também o Stand Up Comedy, um tipo de show cômico com o artista parado no palco utilizando-se de um texto engraçado recheado de piadas para se apresentar ao invés da dublagem. Há muito tempo artistas transformistas fazem este tipo de atividade artística juntamente com a dublagem.  Agora o nome americanizado foi incorporado por estar na moda.

Assim, é essa segunda dimensão, de aspecto artístico, que nos possibilita, também, descolarmos o transformismo de uma categoria “maior”, mais abrangente e, portanto, reducionista, de um ato de transgeneração e interpretar o fato por um viés mais aprofundado, específico, de uma categoria que tenta se auto-definir em termos identitários, nos permitindo, então, perceber o leque de identidades aí imbricado.

Bem... Vamos compreender melhor esta segunda dimensão e seu caráter artístico. Comecemos pela imitação. Transformismo é imitação sim. Observação, e imitação. Mas, muito mais que isso, também é interpretação. O transformista empresta sua carga emocional e ressignifica a obra apresentada. Dá sua “cara”, sua leitura, uma nova roupagem. Por isso também é considerado um ator. Tanto o ator convencional quanto o ator transformista emprestam seu corpo ao personagem, porém, o transformista é um ator um tanto diferenciado, que não interpreta um novo personagem a cada texto, mas sim, um ator que “incorpora” uma única persona que se manifesta em várias.

É mais uma das várias modalidades do fazer artístico; uma entre tantas de uma grande área da interpretação e que congrega diferentes e variadas formas de interpretar e diversas linguagens artísticas.

A arte transformista nasceu nos teatros, mas se confinou a determinados espaços de atuação e esteve por um tempo restrita aos meios de sociabilidade gays. No entanto, este fato vem se modificando, com atores transformistas voltando à raiz da arte e sendo reconhecidos por seu trabalho no teatro, sendo descaracterizados como “meros” atores-transformistas e reconhecidos simplesmente como “atores”, apesar de haver um certo preconceito ainda na classe teatral. Posso citar dois exemplos: Rogéria no Rio de Janeiro e Dandara Rangel, aqui em Porto Alegre, que ganharam importantes prêmios de teatro com seu trabalho transformista. Isto é, Rogéria ganhou o prêmio como Rogéria, não como Astolfo e Dandara Rangel como Dandara, não como Jair.

Por questões sociais e históricas e sua confinação a espaços restritos, a manifestação da arte transformista tornou-se, de certa forma, mais diferenciada de sua raiz teatral, ligando-se, então, mais à música e à dublagem do que à atuação propriamente dita. Isto ocorreu também por ter se desenvolvido inicialmente junto ao Teatro de Revista que era extremamente musicado e coreografado (em outros posts darei mais detalhes históricos a respeito). Assim, acabou se configurando no que entendemos, hoje, por show transformista. Que deve ser considerado um fenômeno datado, social e historicamente construído e pode ser compreendido artisticamente diferenciado de sua matriz teatral. É um fenômeno que se construiu ao longo dos séculos, mas que teve seu aperfeiçoamento no século XX,  se desenvolvendo entre os anos 20 e 60 e obtendo seu apogeu entre as décadas de 70 até o início de  90. O que antes era entendido como uma prática sociocultural de homossexuais, travestis e “invertidos” foi se desdobrando em novas e diferentes práticas identitárias que foram se atomizando e se multiplicando em seu seio. Assim, de uma categoria genérica comum, a de travestis que fazem show, passou-se à miríade de tipos de artistas que circulam no espaço artístico: os transformistas propriamente ditos, os artistas covers, as drag-queens, as artistas travestis, as caricatas, as top-drags, os performers, etc.

Assim, o show de transformismo, atualmente, se realiza por meio de uma combinação de técnicas variadas. Estas técnicas se dividem em três categorias: a dublagem (ou outra técnica artística possível), a performance e a produção visual. Sem estes três quesitos não há show.

A dublagem, hoje, é o principal ato de interpretação transformista. É seu “fazer” por excelência; o que não exclui, na atividade artística transformista, outras formas do fazer artístico, como o cantar, o dançar e obviamente, o atuar. A dublagem é uma espécie de atuação pantomímica que foi possibilitada pela cultura de massas e o desenvolvimento da indústria tecnológica. Contudo, na capacidade interpretativa do artista transformista, de combinar as suas emoções às da voz original, reside todo o caráter artístico do show transformista, nos dando a grata impressão de estarmos vendo e ouvindo alguém tão bom quanto o próprio cantor, o dono da voz. Isto se deve ao fazer pantomímico, quando o intérprete deve passar toda a sua emoção sem o uso das palavras e de sua voz, utilizando para isto o corpo, o gestual, e principalmente, a perfeita sincronia entre as palavras da canção e o mover dos lábios. Esse aspecto fica bem claro quando podemos perceber a diferença do transformista com o artista cover, por exemplo. Geralmente, quando vemos um artista cover idolatramos muito mais o artista “copiado” do que o artista que “copia”. Com o transformismo idolatramos os dois.

A performance, além da dimensão corpórea que lhe é inerente, o uso do corpo através da dança, do gestual e do mis-én-scene, estabelece também uma relação que o artista mantém com o espaço a sua volta: o palco e o espectador. A performance, portanto, serve  como uma forma de comunicação entre o artista e seu público, reafirmando o que muitos filósofos da arte já nos disseram, que a função primeira da arte é nos colocar em contato com nosso próprio mundo e que quando observamos uma obra de arte ou um evento artístico temos que nos reconhecer nele.

É através da performance que um ator transformista passa para a platéia o seu entendimento da música, ou mesmo dá à canção um novo entendimento ou interpretação. Às vezes, na intensidade de um simples mexer de uma mão podemos sentir toda a emoção que um artista está sentindo ao dublar e está querendo passar a seu público. Ou então a performance pode assumir proporções mais teatrais, como quando vi um artista, certa vez, dublando Shirley Bassey com a música This is my life. O artista entrava em cena vestido de mulher e uma bolsa tipo viagem. Durante a música o artista ia se despindo e tirando sua maquiagem e colocava tudo dentro da bolsa. O artista estava se "desmontando", ou seja, saindo da persona feminina e voltando a ser um homem. No final, já vestido como homem, juntamente com a letra da música que dá nome a canção, o artista mostrava a bolsa cheia das roupas femininas para a platéia, como quem dizia "Esta é minha vida". Era lindo!


A produção visual, que congrega as questões plástica e estética, está relacionada diretamente com as técnicas do transformismo em si: a transformação por meio do uso de maquiagem, perucas, roupas, enchimentos e acessórios que garantam beleza e verdade artística ao show. É o elemento de impacto, aquele que o público vê. Numa produção transformista, a produção exigida deve ser rica, brilhosa e exuberante. Como já ouvi um artista comentar: ‘quem gosta de miséria é intelectual, ‘viado’ gosta é de produção”. Num primeiro momento é através da produção que podemos diferenciar um artista transformista de uma drag queen. As produções transformistas, geralmente, são extremamente vistosas e luxuosas, com vestidos de gala bordados com pedrarias, com muito brilho, plumas e muito glamour. A inspiração para o vestuário e produção transformista nos remete diretamente aos grandes espetáculos do Teatro de Revista.

A produção também está fortemente ligada a outra manifestação da arte transformista: os concursos de beleza. A importância desse tipo de evento é tamanha que há um concurso famoso no Brasil, já institucionalizado e respeitado sendo reconhecido pela mídia brasileira como um evento importante. É o Miss Brasil Gay e no  ano de 2009 esteve em sua 33ª edição. Muitas artistas gaúchas, como Misses Rio Grande do Sul, já foram particpar desse evento, que acontece anualmente lá em Juiz de Fora/MG. Entre elas estão Christiny Bastos e Dolly Blond. Outro concurso que marcou época, pelo menos aqui em Porto Alegre foi o Glamour Gay. São concursos muito disputados que seguem rígidas regras de participação, como por exemplo alguns vetam a participação de travestis, sendo estes concursos destinados apenas a transformistas. Já outros permitem. E outros ainda só permitem a participação de travestis. Nesses concursos a palavra-chave é justamente produção. Os vestidos são luxuosíssimos com muitas predarias e bordados. A maquiagem e os cabelos ou perucas devem estar impecáveis. A exigência desses quesitos nessas horas é muito maior que para um show transformista e a exigência da semelhança com uma mulher é que conta pontos, além da beleza, graça, leveza, e obviamente, o andar na passarela. A origem da relação da arte transformista está na própria razão de ser do transformismo, em transformar um homem numa mulher bela e glamourosa, além do fato de que, quando o transformismo estava se desenvolvendo também estavam nascendo no Brasil os consursos de Miss.



É por estas questões que tentei trazer aqui à discussão, que eu afirmo e reafirmo que o transformismo é sim uma arte. Uma forma de expressão cultural que sempre foi considerada de menor ou nenhuma importância por se tornar expressão de um grupo social que foi historicamente discriminado e hostilizado em nossa cultura. Por isso a intenção deste blog, apresentar a vocês, um pouco do universo do transformismo, pelo menos o de Porto Alegre, para que se possa minimizar o preconceito e valorizar esta arte como qualquer outra forma de arte, comunicação e expressão do ser humano.






Abaixo: um vídeo do ator-tranasformista norte-americano Randy Roberts que traduz um pouquinho o que expus aqui e que me lembrou, em muito, os shows que assisti aqui mesmo em Porto Alegre, no final da década de 80 e início da de 1990.





segunda-feira, 27 de julho de 2009

ABC das Identidades



Salve Caríssimos!!!

Creio que alguns esclarecimentos iniciais se fazem necessários, tal é a quantidade de informações estapafúrdias e equivocadas encontradas por aí, em nossos dois mundos, o real e o virtual. A confusão que fazem com rótulos e categorias que impuseram aos gays (aqui num sentido mais genérico mesmo, evitando aquela sopa de letrinhas e a miríade de identidades homo) na tentativa de classificá-los e enquadrá-los em algo “legível” e compreensível aos olhos do mundo dito “normal”. E o pior é que estes rótulos muitas vezes são assumidos e incorporados pelos próprios homossexuais (aqui também num latu-sensu), sem nem mesmo se darem conta, às vezes, de como estes rótulos foram construídos e significados durante a história.
A primeira e principal confusão conceitual que acontece com todo mundo no Brasil, mesmo entre a comunidade gay, é aquela que relaciona travestilidade e arte transformismta. Ou, ainda, colocarem transformistas e drags num mesmo saco, como se fossem a mesma coisa, sendo drag considerado apenas algo mais moderno, uma versão atualizada e repaginada do transformista. Já li, inclusive, artigos de cientistas, psiquiatras, psicólogos e até antropólogos (sim, antropólogos, futuros colegas meus!), enfim, estudiosos do assunto que cometem tal engano. Talvez se tivessem “mergulhados” um pouco mais em seus trabalhos de campo (como é chamado o “fazer pesquisa antropológica”) e prestado mais atenção aos “nativos” (outro clichê antropológico, isto é, a população pesquisada) tais estultices teriam sido evitadas. Tudo bem que as categorias de transformistas e travestis tenham uma gênese comum, tendo, inclusive, sido considerados sinônimos por determinado tempo. No entanto, com o passar dos tempos, algumas especificidades foram acontecendo fazendo com que as duas categorias passassem a diferenciarem-se entre si, criando identidades bastante distintas atualmente.
Fundamental, antes de tudo, é esclarecer certa diferença básica e que vem a embasar todas as outras definições. Trata-se da diferença entre Identidade Biológica e Identidade Psicossocial, ou ainda, entre Identidade Sexual e Identidade de Gênero. Sim! Elas são diferentes! E nunca foram pensadas antes da década de 1960. Graças ao movimento feminista as coisas começaram a mudar.
Bom... uma definição bem básica de identidade: é o conjunto de características e signos através dos quais relacionamos o "eu" com o "nós" e o "eles". Aliás, o "eu identitário" só surge depois de um reconhecimento desses "nós" e desse "eles". Como durante nossa vida nos defrontamos com uma diversidade de "nós" e "eles" podemos construir várias identidades que se justapõem e são acessadas conforme circunstâncias diversas. Portanto, identidades nunca são essenciais ou estáticas, sendo sempre relacionais e cambiantes.  Posso ser homem, gaúcho, cristão, brasileiro, gay, torcedor de um determinado time de futebol, rockeiro, etc, tudo ao mesmo tempo, assim como, ser somente uma delas quando determinada situação assim o exigir. Por exemplo, quando vejo cenas de violência e homofobia no futebol, meu lado gay se manifesta acima da identificação com um time de futebol. Por razões próprias da dinâmica de uma determinada cultura, algumas identidades se tornam mais fundamentais e embasadoras na construção de um "eu", entre elas, a identidade sexual, de nosso local de nascimento ou ancestralidade (étnica/racial) e religiosa. No que se refere à sexualidade, orientação sexual e transgeneração é necessário compreender a dinâmica e relação de duas identidades: a biológica (sexual) e a de gênero.
Identidade Biológica (ou Sexual) é aquela referente ao nosso sexo biológico, genético e com o qual fomos dotados fisicamente, isto é, nossa genitália e que nos define como macho e fêmea, homem e mulher. Já, a Identidade Psicossocial (ou de Gênero) pertence à dimensão do psicológico e do social. É a identidade aparente, comportamental, simbólica, nosso gênero, que nos define como seres masculinos e femininos. Uma comparação rasteira e um tanto reducionista mas que pode ser dada para elucidar a questão: a genética não nos fala em genótipo e fenótipo? Nossas características físicas que estão em nosso cromossomos mas que “aparecem” diferentes no nosso corpo, como cor do cabelo, por exemplo. Lembram das aulas de Biologia do segundo grau? Pois é! Mais ou menos por aí.
Continuando... a divisão das identidades em macho e fêmea, homem e mulher e masculino e feminino remonta à divisão social do trabalho, quando as tarefas para o sustento coletivo dos primeiros grupos humanos foram dividas entre homens e mulheres. A divisão não foi biológica. Foi social. Destarte a única diferença entre homens e mulheres, a de que estas são as únicas capazes de gerar a vida, o resto são diferenças culturais. E assim, pelo menos em nossa civilização ocidental, foram atribuídas certas qualidades a um ou outro sexo e com o passar dos milênios essas qualidades atribuídas foram incorporadas, tomadas como inatas, inerentes ao sexo. A civilização helênico-judaica, sendo cultura mediterrânica e, portanto, patriarcal, com a estória de Adão e Eva reforçou e muito este mito. Só que a diferença entre homem e mulher era considerada de grau, onde o homem era tido como superior à mulher, como se esta fosse uma versão menor e inferior daquele. Entre os séculos XVII e XVIII, com a Revolução Científica e o Iluminismo, essa diferença passou a ser considerada de natureza. Porém, a idéia de que a mulher era inferior ao homem persistiu nas entrelinhas (até hoje isso acontece). O mesmo aconteceu com a questão das identidades. O masculino só poderia pertencer ao homem e o feminino apenas à mulher, ou seja, as identidades genética e de gênero não se dissociavam. Um homem com qualidades femininas? Imagina! Só pode ser uma “anomalia”. Assim era construído o conhecimento, ainda fortemente influenciado por uma moral religiosa. No limiar da Ciência dita moderna, a partir do século XVIII, principalmente no nascer da medicina, com estudos sendo feitos sobre estas “anomalias”, percebeu-se haver, em alguns casos, na espécie humana, uma dissociação entre essas identidades! Assim a Ciência passou a “construir” seres humanos classificados em categorias. E classificação “pode” gerar ordenação! Devo apenas lembrar que isto se passa com nossa civilização: a ocidental. Outras culturas encontraram formas diferenciadas de lidar com a diversidade.
Outra questão pouco compreendida é que desejo nada tem a ver com identidade. Com nenhuma das duas! Os gregos já sabiam disso! Eros jogava suas flechas em todo mundo, o que queria era ver o amor! Imaginem! Zeus, o todo-poderoso “pegador” e mulherengo queria alguém que lhe servisse o néctar no Olimpo. Quem ele escolheu? O efebo Ganimedes, o mais belo dos jovens mortais. Quem diria! Mas daí veio São Paulo, o coletor de impostos arrependido e convertido, e mudou tudo isso. Do amor, nasceu o pecado! Do pecado, a doença e da doença veio o crime! Não se esqueçam, meus caros, em pleno século XXI, homossexuais e travestis ainda são considerados criminosos puníveis com a morte pelas leis de deus e dos homens em alguns lugares!
Por tudo isso e mais um pouco, é que ainda é muito difícil, para a sociedade como um todo, compreender e aceitar alguém de um determinado sexo se vestir e se comportar como se do outro sexo fosse. Isso ainda é tido como anomalia. Não se percebem as diferenças entre as identidades genética e de gênero. E essa idéia faz com que não possamos compreender a questão em toda sua complexidade. E tais diferenças dão-se de várias formas e nuanças, contribuindo, assim, para as diferenças existentes entre transformistas, travestis e transexuais, por exemplo.
Vou explicar melhor, agora, caso a caso, por meio de estudos antropológicos (apesar de limitado, ainda serve para o conhecimento humano, acredito) e também me servindo de definições êmicas, termo usado em antropologia, quando o próprio nativo se qualifica e se define. Ou seja, as definições que trarei são dos próprios homossexuais, transformistas, travestis, drags, etc. temperados com o conhecimento antropológico. Vale lembrar que os termos aqui tratados são referidos em seu uso no Brasil, podendo em outros lugares do mundo assumirem outras conotações. É importante frisar também que estas categorias são de análise , como tipos  ideais, modelos. Portanto, na vivência real podem ser cambiantes, ou seja, um sujeito que se enquadre numa categoria pode passar a assumir a identidade de outra, assim como  considero  a autoidentificação, ou seja, não sou eu que determino a identidade e sim o próprio sujeito que se coloca nela. Vamos, então, a um pequeno dicionário:

Homossexuais: indivíduos que praticam sua afetividade e sua sexualidade com outros indivíduos do mesmo sexo. O objeto do desejo é orientado a alguém do mesmo sexo. “Pode” haver uma identidade homossexual, uma identificação psicossocial com outros sujeitos praticantes da homossexualidade, porém, não é uma regra. Não há um identidade homossexual única. Existem sim, várias microidentidades homossexuais, variadas conforme outras condicionantes. Assim surgem os gays, as lésbicas, os sapatões, as melissinhas, as bichas, os bofes, as barbies, os ursos, os entendidos, etc. A prática sexual homo não está diretamente vinculada a uma identidade homossexual, muito menos a uma homossociabilidade. E identidade homossexual nada tem a ver com uma identidade feminina, no caso dos homens, por exemplo. Isto é um caso controverso. Alguns estudiosos e militantes acreditam que isso se deve ao caráter heteronormativo de nossa sociedade, que exerce uma coerção social tendenciosa, preconceituosa e machista e que não tolera o gay way of life. Outros, porém, acreditam que o assumir-se, o coming out, o famoso sair do armário e a forma como isso se dá é uma questão de escolha individual. Será?

Transgêneros: termo surgido recentemente e que serve para designar toda uma categoria de sujeitos que praticam a transgeneração, isto é, dissociam suas identidades genética e de gênero. Comportam-se nas situações mais variadas e por razões diversas como se pertencessem ao sexo oposto. O termo surgiu para dar conta das várias identidades trans surgidas e percebidas a partir do século XX e que, antes disso, eram categorizadas apenas como travestis ou invertidos. Compreende, portanto, travestis, transexuais, transformistas, drag-queens, crossdressers, etc. O fenômeno  da transgeneração é histórico e cultural: foi se transformando de acordo com novas práticas identitárias e novas descobertas científicas e se materializa diferentemente de acordo com o contexto cultural em que está inserido. Divido a categoria transgêneros em duas subcategorias:  as identitárias, aquelas em que a identidade de gênero é sociopolítica (travestis e transexuais) e as performáticas, quando a identidade é acessada em momentos e situações específicas (transformistas, drag-queens e crossdessers).

Cisgêneros: São os indivíduos que conciliam as identidades sexual e de gênero. Homens e mulheres que, mesmo sendo homossexuais, expressam seu gênero conforme sua identidade sexual. A categoria cisgênero ganhar destaque neste início de milênio com novas práticas estético-corporais e de papéis sexuais, quando uma heteronomatividade se insere acirradamente no entendimento da homossexaulidade, como por exemplo, a busca de padrões masculinos de comportamento e de estética entre os homossexuais masculinos, carregada, inclusive, de uma abjeção aos homossexuais efeminados e aos transgêneros.


Intersex: mais conhecidos como hermafroditas. Termo que se originou na figura mitológica grega Hermafrodita, filh@ dos deuses Hermes e Afrodite e que herdou fisicamente os dois sexos de seus progenitores. São sujeitos sexualmente ambivalentes, ou com um sexo “indefinido”. Não há na realidade um hermafrodita completo, ou seja, com os dois sexos plenamente formados num só corpo. Um sempre se sobressai ao outro em alguma de suas variadas e complexas características e que ultrapassam a simples questão da genitália, incluindo aí caracteres hormonais, cromossômicos, biológicos e psicológicos. O que existe realmente chamam de pseudo-hermafroditismo. Questão deveras polêmica. Pois, os médicos acham necessário proceder cirurgicamente para “corrigir o problema”. Assim, geralmente, são os médicos, ou melhor, uma equipe médica interdisciplinar que definirá o sexo final do sujeito intersex. Já existe um movimento sociopolítico, da parte dos próprios sujeitos intersex, que visa o impedimento dessas intervenções cirúrgicas fazendo, assim, com que seja o indivíduo intersex, já em idade adulta, aquele quem decidirá se haverá ou não uma “correção”.

Transexuais: Muitas vezes são confundidas com travestis operadas, porém uma diferença  deverá ser considerada: muitas vezes o desejo da operação de troca de sexo, ou uma correção genital se coloca como necessidade. A confusão com as travestis se dá pelas caraceterísitcas básicas comuns a ambas, pois, como as travestis, as transexuais pertencem a um sexo biológico, mas comportam-se socialmente como se do outro sexo fossem tanto em suas vidas públicas quanto privadas. São mais conhecidas pela expressão “alma de mulher aprisionada num corpo de homem” (ou o contrário). Através desta expressão e com o que venho discutindo aqui, no que se refere às identidades genética e de gênero, já dá para se entender o real significado da expressão. Há um total desencontro entre as identidades fazendo com que a segunda negue a anterior. A identidade psicossocial não aceita a sua identidade sexual, resultando em que estes indivíduos recorram , muitas vezes, à intervenção cirúrgica para buscar corrigir essa diferença. Não há necessariamente uma relação direta da transexualidade com a homossexualidade. Heterossexuais também podem vir a tornarem-se transexuais. No caso de homem para mulher: é um homem que quer SER uma mulher. Ciências como a Medicina e a Psicologia ainda consideram a transexualidade um transtorno psicológico de identidade, patologizando a categoria.

Crossdressers: Muito confundido com a travesti e com o próprio transformista, sendo erroneamente identificado com todo aquele sujeito que se veste com roupas do sexo oposto. Na verdade é um movimento surgido na última década para designar o sujeito geralmente heterossexual (mas também há sujeitos homossexuais e bissexuais) que, por prazer, fantasia, fetiche ou identificação de gênero, veste-se com roupas do sexo oposto. A prática não é cotidiana, havendo inclusive encontros específicos de crossdressers. O termo surgiu para diferenciar-se de travesti, que são mais confundidos com homossexuais. Não há necessariamente uma conotação sexual, apenas sociocomportamental.

Travestis: O termo parece ter tido origem no século XV e foi ressignificado no início do século XX por um médico alemão. Se referia aqueles sujeitos que se comportavam como se fossem do outro sexo biológico, incluindo aí, desde fetichistas até aqueles que viviam assim constantemente. Outro termo empregado era inversão. A partir dos estudos deste médico o termo travesti se popularizou  e no Brasil  chegou nos anos 50 se generalizando e virando, inclusive, sinônimo de homossexual afeminado.  Toda e qulaquer pessoa que assim se comportava era considerado um travesti, não importando o contexto.  Para o significado dessa colocação, usa-se hoje em dia, o termo transgênero. Não há uma relação direta da travestilidade com a homossexualidade, nem mesmo uma direta identificação. Como no caso anterior, também há uma diferença entre a identidade sexual e a psicossocial. Mas não ao ponto de uma total negação entre ambas. Como os transexuais, comportam-se socialmente, pública e privadamente, como se fossem pertencentes a outro sexo. A partir dos anos 50 e 60,  pelo menos no caso de homens que se travestiam de mulher, com o advento de novas tecnologias, as travestis passaram a fazer uso de hormônios e aplicações de próteses de silicone, para aprimorarem as características femininas requeridas e necessárias. Assim, as travestis começaram a definir e especificar mais ainda sua indentidade, diferenciado-se dos transformistas  e outros sujeitos transgêneros. No entanto, o sujeito travesti não nega seu sexo biológico na grande maioria das vezes. A maioria dos casos ocorre entre indivíduos nascidos homens., porém, há mulheres travestis, só que são menos aparentes socialmente. Pode acontecer de um sujeito travesti querer operar-se, tornando-se, assim, um transexual, o que chamo de “trânsito entre identidades”, mas  parece ser uma minoria. Até mesmo porque, muitas das travestis, infelizmente, para terem seu sustento material ainda precisam recorrer à prostituição, sendo, portanto, necessária, muitas vezes, a manutenção da genitália masculina, o que pode ser percebido nos  anúncios de classificados: “uma mulher especial, com um brinquedinho a mais”. É neste ponto que reside a tênue e sensível diferença entre travestis e transexuais. A travesti somente não recorre à cirurgia porque “precisa” de seu sexo biológico ou porque realmente não sente-se uma mulher como o transexual. Polêmico!!! No caso de homem para mulher: é um homem que quer SENTIR-SE como uma mulher.

Transformistas: O termo parece ter surgido na década de 1920 por meio do teatro e comporta aqueles indivíduos que se vestem com roupas e acessórios do sexo oposto, porém, atualmente, o contexto é totalmente diverso daquele em que os outros sujeitos trangêneros estão inseridos. Não há intervenções cirúrgicas, no máximo e em reduzidos casos, algum uso de hormônios para suavizar as formas físicas masculinas do corpo ou preencher um pouco os seios (no caso de homens transformistas; mulheres transformistas são raras). A prática nunca é privada, ou seja, o transformista não age assim para estar dentro de casa, no seu dia-a-dia. Portanto, a prática é sempre pública,  geralmente  em espaços de homossociabilidade. A relação com a homossexualidade é mais direta. A prática transformista está diretamente relacionada com a arte do transformismo, ou seja, é utilizada para performances em shows de dublagens, espetáculos teatrais e concursos de beleza feminina. No caso da arte transformista, as técnicas utilizadas podem servir à busca pela semelhança com alguma mulher em especial, geralmente grandes cantoras. Os artistas transformistas  geralmente criam uma única personagem, algo como um alter-ego, porém, podem variar suas interpretações e os artifícios utilizados são variados, mas sempre extracorpóreos, nunca intra. Usam-se perucas, meias, técnicas de maquiagem e de enchimentos nas roupas para acentuar curvas e sinuosidades, como peitos postiços assim como a famosa “pireli” usada nas nádegas para “arredondar o traseiro”. A intenção do transformista é ficar o máximo possível parecido com uma mulher. Transformistas são aqueles homens que querem PARECER uma mulher. Não há nenhuma negação, por parte do transformista de seu sexo biológico. Ao contrário, brinca-se com isso. A arte está justamente aí. Todos saberem que atrás daquela mulher linda e interessante está um homem. A figura clássica do transformista foi eternizada por Julie Andrews no filme “Victor ou Victória” onde uma mulher faz-se passar por um homem que faz show vestido de mulher. O termo ainda é muito confundido com travesti e, atualmente, também com a drag, tanto dentro do universo homo como na sociedade em geral. Há a questão das regionalidades também. Em muitos lugares, estes dois termos são praticamente sinônimos, como na língua espanhola, por exemplo, onde as travestis são chamadas de transformistas. No português brasileiro é o contrário. Os transformistas são chamados de travestis de maneira geral pela sociedade e as travestis que fazem shows são chamadas de transformistas, mesmo entre os homossexuais. Este último fato se deve às significações que o show transformista recebeu. Pois, o show transformista, durante certo tempo, passou a ser todo aquele show que era feito por um homem biologicamente definido como tal, porém, vestido como uma mulher, independentemente se tinha peitos de silicone ou não. Mas com o surgimento das drag-queens, nos anos 80 e 90, os artistas genuinamente transformistas passaram a se auto-identificarem desta forma, numa tentativa de demarcação de sua identidade e afirmação de sua diferença em relação às drags e às travestis. Não é uma categoria fechada, ou seja, transformistas podem virar uma travesti ou mesmo uma drag. Mais uma vez o tal “trânsito” entre identidades.  Os transformistas mais famosos de Porto Alegre e ainda na ativa são: Lady Cibele, Dandara Rangel, Laurita Leão, Glória Cristal (do Cine Theatro Ypiranga), Charlene Voluntaire (também do Cine e às vezes definida como drag pelo modo como iniciou sua carreira), Iaçana Makeba, Victória Principal e Bruna Diniz (da Refugiu’s Mega Danceteria).

Drag-queens: Este é o único caso que se aplica somente aos homens que se vestem de mulher. Não há mulheres drag-queens, pelo menos no Brasil. Na confusão, tentaram classificar as drag-kings, as mulheres que se vestem de homem, mas, pelo menos aqui, não vingou.  A origem do termo é confusa: queen é a forma na língua inglesa para o nosso "bicha" e drag pode ser uma sigla para DRessed As a Gril, (vestida como uma garota), mas não há evidências concretas disso.  Outros ainda afirmam que a origem de drag vem de dragão e queen seria rainha mesmo. (drag-queen = rainha-dragão). Nos Estados Unidos parece que o termo drag-queen é utilizado para todo e qualquer homem que se vista de mulher, algo como a generalização do termo travesti no Brasil. Para o que nós usamos como drag-queen e transfomrista no Brasil, na língua inlgesa é impersonator. Enfim, a onda drag foi uma tendência surgida nos EUA e também na Inglaterra, nos anos 70, na esteira da contracultura e ainda na era Disco e que se popularizou na onda clubber dos anos 80 e 90, principalmente com o estouro mundial do filme australiano “As Aventuras de Priscilla – A Rainha do Deserto”. Como os transformistas, as drags também estão mais ligadas à homossexualidade (há relatos de homens heterossexuais que se profissionalizaram como drags) e à performance, porém, com características completamente diferentes. Antes da popularização do fenômeno em 1994, elas já existiam numa forma variada mas em número bem menor. A maquiagem era bem diferente, num estilo pantomímico, com uma máscara de maquiagem branca cobrindo o rosto, com os olhos e a boca pintados num colorido intenso, porém, o tom debochado e exagerado era o mesmo. Eram figuras clownescas do carnaval carioca que  se transformaram na caricata e emprestou características à drag queen moderna. Figuras clássicas, no Brasil, dessas drag-queens antigas e caricatas são Isabelita dos Patins, Lola Batalhão e Laura de Visón. Em Porto Alegre há Pérla Ostra, eterna madrinha da Parada Livre. A drag não quer parecer uma mulher, ela DEBOCHA do feminino, no sentido teatral do termo. É uma over-woman, uma super mulher, o supra-sumo da atitude camp.  A maquiagem é exagerada, o figurino colorido, extravagante. Diferentemente do transformista, uma drag não esconde seu sexo biológico. O corpo masculino, mesmo que depilado, permanece à mostra. Não há exatamente uma tentativa de feminilizar o corpo, no máximo o uso de peitos postiços. Os braços masculinos, por vezes até musculosos, podem ficar à mostra sem nenhum problema, quando os transformistas, muitas vezes precisam recorrer aos vestidos com manga e luvas para encobrirem os braços masculinos. A drag-queen é um personagem único. A arte drag é totalmente diversa da arte-transformista. O transformista é mais restrito ao palco, à dublagem principalmente. A drag-queen, muito mais performática, começou nas pistas, nas portas das casas noturnas, recepcionando e brincando com o público, depois é que subiu aos palcos. Não há a busca da semelhança com o artista performatizado. É outro tipo de arte, quando a performance é feita pela mesma persona sem variar as interpretações. É uma arte assemelhada com a arte clown, só que um clown alegre, extremamente alegre. Por isso as críticas hoje existentes em relação às drags, de que elas fazem sempre o mesmo show com performances repetitivas. As pessoas não entendem esse caráter performático e de um único personagem. A drag mais conhecida de Porto Alegre é Letícia Dumont.

Top-Drags: Uma variação da Drag-queen. Muito mais feminina. Uma espécie de fusão entre uma artista travesti e uma drag-queen. Mantêm as características performáticas da drag-queen. Mas o corpo mais feminino é evidenciado, a maquiagem deixa de ser exagerada e passa a ser um pouco mais "natural". A busca é por femme fatales. Muitas drags se autodenominam como Tops, como um upgrade em sua carreira, algo como über model entre as modelos. Os maiores exemplos de Top-Drags em Porto Alegre são Suzzy B (da boate Vitraux Club) e Gia.

Caricatas: transformistas especializados em performances cômicas. Deboche puro, brincando com a figura da mulher estampada num corpo masculino. Geralmente é evidenciada a feiura, o bagaceiro, o brega. Por vezes, dependendo da performance, o tamanho dos seios e das nádegas é exagerado. O maior exemplo de ator-caricato aqui em Porto Alegre é o ator João Carlos Castanha. Dandara Rangel e Laurita Leão também fazem performances cômicas e escrachadas. Na história das artes transgêneras no Brasil há uma forte relação da caricata com a origem da drag-queen brasileira.

Covers: artistas performáticos especializados em performances imitativas. O nome vem das bandas musicais que se especializam em tocar o repertório de uma outra banda já conhecida. E no Brasil foi este o termo que se convencionou usar para denominar este tipo de arte. Nos países de língua inglesa a palvra usada é impersonator (utilizada inclusive para transformistas). São performers que se especializam em imitar os outros em suas ações e comportamentos, além da aparência. Na sua relação com o transformismo apenas se retira a dimensão transgênera deste. O caráter artístico do transformismo permanece o mesmo. O maior exemplo de artista cover na noite  gay de Porto Alegre é o Nikki Goulart com suas performances de Michael Jackson e Nina Haggen.

Montadas: Montada é o termo usado para aquele que está vestido de mulher. Montaria é todo o aparato necessário para a transformação.

Andrógino: Termo que mistura as palavras gregas “andros” e “ginos” e que designam exatamente masculino e feminino, respectivamente. Todo aquele sujeito que tem a identidade de gênero ambivalente ou indefinida, diferentemente dos transex, quando a indefinição se dá na dimensão biológica. Androginia ultrapassa o masculino e o feminino, dando espaço para dúvidas numa definição. Pode ser a fusão entre o masculino e o feminino, fazendo com que estes conceitos desapareçam ou mesmo mantenham a permanência de características de ambos os gêneros.

           Heterossexuais: Sujeitos que praticam sexo com alguém do sexo oposto. O termo passou a existir quando homossexualismo virou homossexualidade. Quando o homossexualismo deixou de ser considerado uma anomalia pela Organização Mundial de Saúde em 1985 e pela Associação Internacional de Psicologia em 1999 (pasmem! Somente há 10 anos), surgiu o termo homossexualidade. Assim heterossexualidade veio na esteira para marcar a diferença. Antes não se pensava num sujeito heterossexual, tal o peso de normatividade que esta prática tinha. Era o correto, o normal, portanto nem precisava ser nominado. A diferença era dada apenas entre homens e mulheres. Com uma maior aceitação da homossexualidade, o mundo passou a ser dividido entre heterossexuais e homossexuais. Setores do movimento LGBTT reivindicam uma ampliação dessa ideia reconhecendo a existência não só de identidades múltiplas mas também de sexualidades variadas.


Bissexuais: Sujeitos que praticam sexo com sujeitos de ambos os sexos. Ainda é considerada uma prática marginal, tanto por heterossexuais quanto por homossexuais. Tidos como “suspeitos” ou “promíscuos” ou simplesmente alguém que não quer sair do armário. A questão mais importante a ser considerada, no entanto, é a forma binária e dicotômica como ainda encaramos a sexualidade humana e que só permite a existência de dois modelos: os heteros e os homos, não possibilitando a compreensão da extensa variabilidade de práticas sexuais que a sexualidade humana pode abarcar.

Ufa!!! Foi longo, mas o básico tai! Qualquer dúvida ou objeção ao aqui exposto é só entrar em contato comigo!